Agora
tanto os fãs de Raul Seixas como os de Paulo Coelho podem acessar documentos
até então inéditos do período em que ambos sonhavam juntos o sonho da Sociedade
Alternativa. Paulo Coelho resolveu disponibilizar para download em seu site
oficial um material precioso para pesquisadores, estudiosos, fãs e
colecionadores. Lembro-me de ter visto parte desse material no apartamento de
Paulo na Rua Raimundo Correia, em Copacabana, em 1982, quando Raulzito nos
apresentou. Nessa minha primeira visita Paulo inclusive me presenteou com
algumas peças repetidas que guardada numas caixas de papelão tipo arquivo
morto, tudo muito bem organizado em estantes num quartinho em seu apartamento.
Os
fãs mais radicais de Raulzito Rock Seixas que, por motivos escusos, detestam Paulo
Coelho, irão se surpreender com o rico material disponibilizado no site do mago.
O dia nacional da democracia é para grande maioria sinônimo
de vergonha, os mais recentes acontecimentos envolvendo operações da Policia
Federal, Impeachment e mais recentemente assassinatos de uma quantidade
considerável de candidatos só faz confirmar a certeza que a famigerada politica
do Brasil chegou a um estágio deplorável, com chances remotas de melhoria a
curto prazo numa análise bem realista. Em face do escarcéu que vive a nação nos
últimos meses resolvemos criar a lista das cinco músicas politicas mais significativas
do rock nacional. O Rock sempre foi e sempre será um veiculo importantíssimo de
elucidação das massas. Desde Bob Dylan com as primeiras canções de cunho político-social
passando por Beatles com “Revolution” e logo depois o punk rock metendo o dedo
na ferida sem nenhum pudor. O rock’n’roll sempre esteve ai chamando a atenção a
quem quiser ouvir, a realidade ao nosso redor só será algo mais
justo e igual, se profundas mudanças ocorrerem na forma e nos meios de se fazer
politica no Brasil e no mundo.
05.
Até Quando Esperar (Plebe Rude)
A
Plebe Rude é uma banda de rock de Brasilia surgida no cenário do rock nacional
no inicio dos anos 80. A música “Ate
Quando Esperar” é um clássico da banda que possui outras tantas canções de
rock de cunho politico. A música foi sucesso no Brasil inteiro chegando ao topo
das paradas das rádios em meados dos anos 80, a letra fala de má distribuição de
renda, uma alusão também as promessas inócuas de melhoria da qualidade de vida,
um retrato de um país que como diz a letra vive a espera eterna de um momento
melhor, momento esse que até hoje jamais chegou.
04.
Alvorada Voraz (RPM)
RPM
banda paulista dos anos 80, advinda da safra de bandas da maior cidade do país.
Na letra Paulo Ricardo mistura lirismo e critica político-social em versos
criticando um país que ainda se via envolto na censura e alguns sintomas repressivos
de uma ditadura que estava prestes a cair, crimes de corrupção e previsões não
tão interessantes para a virada do século XXI.
03.
Aluga-se (Raul Seixas)
O
mestre Raul Seixas em 1980 lançou no disco Abre-te-Sésamo a música que talvez
melhor sintetize o desejo de muitos brasileiros. Aluga-se é uma espécie de
consultoria dada pela mente genial de Raul Seixas em cima da crise politico-social eterna que o país vive. Na visão do artista alugar o Brasil é a única
solução, segundo ele tem a Amazônia como vista do nosso quintal nada mais
propício para uma venda de sucesso, até porque o dólar deles paga o nosso
mingau. Um clássico do nosso grande Raulzito e uma das criticas mais contundentes
a classe politica do Brasil.
02.
Brasil (Cazuza)
Cazuza
assim como a maior parte dos músicos e letristas do rock nacional dos anos 80
era filho da classe média alta. Nada mais esquisito em termos de posicionamento
politico, e de fato era, a conscientização artística desses jovens daquela
geração legou a eles uma forte consciência politica também. Na letra de “Brasil” Cazuza
fala dos bastidores do High Society, mas com um olhar de alguém da plebe. “O
meu cartão de crédito é uma navalha, Brasil qual o téu negócio o nome do teu
sócio confia em mim”. Um dos momentos altos do rock nacional quando o assunto é
letra politica.
01.Que
Pais é Esse? (Legião Urbana)
A música do
rock nacional que melhor sintetiza o estágio de decadência renovável da nossa
classe politica é “Que País é Esse?” da
Legião Urbana. Renato Russo escreveu a letra quando ainda vivíamos na ditadura
militar em 1978, a letra que diz “Na
Amazônia no Senado sujeira pra todo lado” é de uma atualidade repugnante.
No inicio dos
anos 70 Raul era produtor da CBS e certo dia um artigo sobre discos voadores
lhe chamou a atenção ao lê-lo numa revista, Raul foi até a redação da tal
revista no intuito de conhecer o autor do artigo, chegando lá conheceu quem
havia escrito o artigo, era ninguém menos que Paulo Coelho a época metido com
produção de teatro e a edição de uma revista sobre assuntos místicos. A amizade
se consumou e logo depois os dois passaram a participar de uma sociedade
esotérica. Essa sociedade esotérica tinha seus princípios baseados nas obras do
bruxo e místico inglês Aleisteir Crowley, lá para as tantas a direção da
sociedade resolveu presentear os dois com um grande terreno em Minas Gerais,
onde supostamente seria construída a “Cidade das Estrelas” no local os dois
iniciariam a disseminação dos preceitos de algo que ficou conhecido como a
Sociedade Alternativa, uma sociedade onde todos os valores seriam invertidos, o
advogado seria o não-advogado, o delegado o não-delegado e por vai. Uma canção
foi composta pela dupla para sintetizar os ideais dessa nova ideologia, nos
shows Raul Seixas tinha o papel de divulgar para seus fãs do país inteiro
aqueles preceitos, a ditadura militar investigou sobre o assunto e resolveu
prender e deportar os dois para fora do Brasil. A letra é bastante
significativa, pois cita abertamente o nome do bruxo inglês que é conhecido
como uma das personalidades mais execráveis da história de todo o Reino Unido,
ainda assim influenciou e influência até hoje artistas e intelectuais de renome
ao redor do mundo.
Ainda na Bahia
Raul Seixas estudou e se formou em filosofia, durante toda a sua carreira ficou
bastante visível a influência da filosofia em diversos sucessos de sua
carreira. A música Rock do Diabo é tida como uma das músicas mais polêmicas do
artista, por dentre outras coisas afirmar que o diabo é o pai do rock. A letra
fala que enquanto Freud explica o diabo fica dando os toques, na verdade Raul
havia se apropriado de ideias de filósofos como Platão que dizia que os seres
humanos possuem em suma duas fortes influências em sua natureza, uma boa que
representaria o bem e uma má que representava o lado mal de nossa
natureza. Rock do Diabo é sem dúvidas uma das canções mais controversas do
Maluco Beleza.
Por volta de 1978
Raul Seixas passou uma temporada no interior da Bahia com o intuito de se curar
de uma pancreatite adquirida por conta de anos de abuso de álcool. Nesse
período Raul conheceu sua terceira mulher Tania Mena Barreto, o disco Mata
Virgem foi lançado nessa época e representa um momento atípico na discografia
do cantor, com canções voltadas às raízes sonoras do sertão, como baião e o
forró. A canção Mata Virgem é de uma beleza poética ímpar, nela Raul Seixas
trata dela Tania Mena Barreto, diz a lenda que quando a conheceu ela era
virgem, a letra trata do encontro através de um viés poético, a canção é tida
como polêmica por conta dessa informação, segundo outra letra desse período chamada
Baby a musa inspiradora tinha apenas 13 anos quando conheceu e passou a viver
com Raulzito Seixas.
Um dos maiores
sucessos da carreira do baiano Rock das Aranhas faz parte das canções polêmicas
com certo teor de sarcasmo. Na letra Raul trata do assunto do homossexualismo,
mais precisamente o lesbianismo, sempre oferecia a música nos shows para as
cantoras brasileiras declaradamente homossexuais. Das varias vertentes musicais
existentes no seu trabalho Rock das Aranhas aparece como uma das mais
emblemáticas e polêmicas.
A
Maçã é de longe a música mais instigante de todo o cancioneiro do Maluco
Beleza. Apesar de passar despercebida por muitos a junção de poesia e melodia
de nuance barroca, serve de estrutura para um formato que esconde um sentido
muito mais amplo nas entrelinhas de seus versos. O titulo faz alusão aos
relatos bíblicos do livro do Gênesis, a fruta da perdição do Jardim do Éden.
Raul faz uma analogia a genitália feminina e todos os desejos, desejos esses
diversas vezes incontroláveis da natureza humana. No trecho “Quando jurei meu amor eu traí a mim mesmo,
hoje eu sei, que ninguém nesse mundo é feliz tendo amado uma vez”, o
compositor se despe de todo e qualquer tradição machista ou similar para
afirmar que o amor entre homem e mulher só é pleno, quando exercido de forma
aberta pelos dois lados. Trazendo essa informação para a vida pessoal de Raul
Seixas, fica bastante visível o quanto ele levava a sério. A Maçã ainda que a
grande maioria não perceba é o texto mais instigante e polêmico da carreira
desse grandessíssimo artista.
Hoje é o aniversário de 85
anos de um dos senão, o maior poeta vivo do Brasil. Ferreira Gullar é
maranhense, nascido na cidade de São Luís. Ainda muito jovem ganhou um concurso
de poesia do jornal do Brasil e por conta desse premio foi convidado a morar no
Rio de Janeiro, isso na década de 50. Logo depois Ferreira Gullar rompe com uma
forma mais clássica de fazer poesia, e logo depois lança um dos seus livros
mais importante chamado A Luta Corporal,
nesse livro de poesia magistral Ferreira Gullar segundo ele mesmo passa por uma
experiência limite quando ao escrever um poema chamado Roseiral, acredita ter implodido com a
sintaxe e esse acontecido causou uma espécie de interrupção no seu processo de
criação literária. Logo depois o poeta encontra na poesia de cordel a
possibilidade de protestar contra as desigualdades sociais do país, nesse período
passa a cuidar da UNE e se afilia ao partido comunista, com o golpe de 64,
Ferreira Gullar passa a ser procurado pelo aparelho repressivo da ditadura e se
vê obrigado a sair do Brasil, indo para União Soviética, Peru, Chile e
Argentina, onde escreve em 1975 a sua obra prima o Poema Sujo, o poema seria uma espécie de despedida do poeta, depois
de tantos anos na clandestinidade, a pedido de Vinicius de Moraes o poeta lê o
poema aos amigos ainda em Buenos Aires e essa leitura é gravada por Vinicius e trazida ao Brasil. A repercussão do poema por aqui faz Ferreira Gullar
retorna ao país no final da década de setenta no país vivendo os primeiros
momentos da abertura politica.
Ferreira
Gullar e a Canção Popular
É estreita a relação do
poeta com a música popular, Ferreira foi o diretor artístico do show opinião na
década de sessenta, show esse que revelou ao Brasil a cantora Maria Bethania, o
compositor regional maranhense João do Vale, e o poeta do morro o sambista Zé
Ketti.
Certa vez nos anos noventa Ferreira
Gullar aceitou o convite para traduzir e transcrever para o português um bolero
do cantor dominicano Juan Luiz Guerra, a música ficou conhecida em português como
Borbulha de Amor cantada por Fagner. Essa
mesma canção mudou a vida de Adriana Calcanhoto. A própria Adriana Calcanhoto
musicou o poema de Ferreira Gullar chamado Traduzir-se
e é descaradamente uma fã do poeta. O poeta tem ainda como parceiros musicais
Caetano Veloso (“Onde Andarás”),
Milton Nascimento (“Bela bela”),
Paulinho da Viola (“Solução de vida”). Ferreira Gullar também é conhecido por
colocar letra na peça Trenzinho Caipira de
Villa Lobos.
Nenhum outro estilo musical
esteve ligado ao descontentamento politico-econômico-social como rock desde
seus primórdios. É bem verdade que sempre houve um embate entre rock e
politica, que desde sempre se mostraram como coisas antagônicas, um dos
primeiros exemplos disso foi o estardalhaço que as apresentações de Elvis
Presley causaram na sociedade americana dos anos 50. A dança sensual do artista
foi tida como altamente prejudicial para a juventude da época, a ponto de em
algumas apresentações na televisão a câmera só filmar o cantor da cintura para
cima.
Mas foi através de letras
compostas para canções de protesto que se delineou de forma bastante clara essa
guerra entre o rock e a politica. Assim como água e vinho, açúcar e sal, água e
fogo, o rock desde seus primeiros anos nunca compactuou com as erradas praticas
politicas, quase sempre representou uma pedra no caminho do poder estabelecido.
Um dos primeiros artistas a atacar veemente através de suas composições o
status-quo foi Mr. Bob Dylan, nos primeiros anos de sua carreira algumas canções
tratam conscientemente do tema. E uma das mais conhecidas é o hino de toda uma
geração Master Of War:
Os Beatles logo depois
também entraram na briga, na sua segunda parte dos anos sessenta, a banda havia
deixado para trás a temática adolescente das canções e mergulhado em temas mais
existenciais, nesse período Lennon & McCartney compuseram uma canção que
deixou Brian Epstein o empresário da banda de cabelos em pé, Revolution era descaradamente um recado
dos dois para o absurdo que representava a guerra do Vietnã, segundo alguns biógrafos
começava nesse momento uma briga que duraria anos entre o FBI e John Lennon.
Na virada dos anos sessenta
para os anos setenta, uma banda americana chamada MC5 considerada uma das
primeiras bandas punk da história, lançaram Kick
Out the Jams, que foi um álbum gravado ao vivo recheado de palavrões e
ideias revolucionárias. Mais tarde no ano de 1977 com o surgimento do Sex
Pistols no Reino Unido e do Punk de Nova York diversas bandas abraçaram a causa
e produziram diversos álbuns escancarando criticas ferozes aos regimes
políticos e uma parcela da sociedade careta e conservadora.
NO BRASIL
No Brasil a classe artística
também travou diversas brigas com a classe politica desde os anos sessenta
iniciando com o pessoal da Tropicália de Gilberto Gil e Caetano Veloso, o
movimento tropicalista no seu cerne sempre foi um movimento de reestruturações
estéticas e politicas também, haja vista ter surgido nos anos de chumbo da
ditadura, onde alguns de seus integrantes chegaram a serem exilados em outros
países. Numa outra vertente Raul Seixas e Paulo Coelho sofreram na pele a
truculência de uma ditadura que sempre desconfiava de toda e qualquer
movimentação que envolvesse ideias novas, que parecessem aos olhos da máquina
repressora algo subversivo e transgressivo. Os dois também foram deportados
para fora do Brasil nos anos setenta por terem iniciado o projeto de uma
Sociedade Alternativa, onde os valores seriam invertidos, seria uma comunidade
no centro do Brasil onde o advogado seria o não advogado, o deputado seria o
não deputado e por ai vai.
Ainda nesse período um
pessoal de Minas Gerais que ficaram conhecidos como a turma do Clube da
Esquina, iniciou um movimento musical que tinha nas entrelinhas de suas canções
diversas criticas ao regime ditatorial que assolava a nação naqueles anos. E no
final da década e inicio dos anos oitenta o chamado Rock de Brasília explodiu
nas rádios do Brasil inteiro com letras que descaradamente faziam alusão ao
descaso político-social que o país passava desde o golpe de 64, bandas como
Legião Urbana, Capital Inicial e Plebe Rude tiveram suas composições cantadas
por milhares de jovens no território nacional, essas canções imortalizaram um período
onde a nação inteira ansiava pela abertura politica e eleições diretas. O Brasil
diferente de algumas nações pouco evoluiu em relação as suas práticas
politicas, e desse período para cá poucas foram as bandas do dito mainstream
nacional que ousaram meter a boca no microfone e produzir canções de protesto,
muitos dizem que isso se deu pelo motivo da esquerda que em décadas atrás
estava com a classe artística ter chegado ao poder. Essa mesma esquerda que
sofria com a máquina repressora da ditadura militar e hoje se encontra alçada
ao poder, não reprime mais artistas e a juventude em geral, porém causam danos incalculáveis
a sociedade disseminando um mar de corrupção e vários outras práticas execráveis
advindas de um gene maquiavélico dos tempos coloniais.