É bem recente o inicio dos registros fonográficos de música no Maranhão, algo em torno de um pouco mais de quarenta anos. Talvez o primeiro grupo musical a realizar a gravação de um disco ainda nos anos 70 foi o Seu Nonato e Seu Conjunto, um grupo de baile que obteve um sucesso bastante interessante em São Luís, com apresentações inclusive em outros estados do nordeste. O grupo realizava uma mistura bem interessante de samba, soul, funk e pitadas de música latina, foi uma das primeiras bandas do país a gravar um reggae.
Com a chegada dos anos 80 começaram a surgir ainda que de forma bastante tímida as primeiras bandas de rock do estado, bandas em sua maioria influenciadas pela explosão do Rock Brazuka e também da Turma da Colina de Brasília. Fora isso algumas poucas bandas começaram a surgir influenciadas pelo New Wave Heavy Metal British, movimento que lançou grandes nomes do metal como Iron Maiden, Def Leppard e Judas Priest. Dessa época podemos citar a banda de Trash Metal maranhense chamada Ácido, diz a lenda que a banda tocou no lendário festival Setembro Negro em Teresina ao lado do pessoal do Sepultura do inicio de carreira. Na segunda metade da década começaram a surgir nomes que seriam responsáveis por um inicio de uma cena que somente hoje começa a se estabelecer, bandas como Ânsia de Vômito, Amnesia, Daphne, Face Oculta, Paul Time, Alcmena e outras. Com a chegada da década de 90, algumas informações foram de extrema importância para o inicio de formação de um público alternativo, o advento de um programa de radio (Time Rock), lojas de discos e acessórios como a Submundo do Rock, Casa do Rock, Traffic Sound, figuras fundamentais nesse período podemos citar o radialista Gilberto Mineiro e Joacy James desenhista, cartunista, chargista, agitador cultural, membro do movimento punk maranhense, além de integrante de bandas de punk como a Última Marcha, Pedro da Cooperativa Rola Rock’n’Roll e da banda Comportamento Estranho, uma das bandas mais antigas em atividade no meio rock da capital. Vários bares surgiram e desapareceram durante todo esse período, desses um com certeza ficou na história do underground de São Luís, o famoso Bar do Bento no bairro São Francisco, era um dos poucos locais voltados para headbangers, punks e hardcores do Maranhão.
Banda Ânsia de Vômito
Tive a oportunidade de assistir o último show de uma das melhores bandas da década de 90 nesse local, a banda era o Sarcoma que tinha na bateria e vocal Eduardo Patricio, outra figura imprescindível para a cena rock daqueles anos. Posso citar dois shows que foram de suma importância para a galera rock’n’roll da capital exatamente na primeira metade da década, o primeiro foi da lendária banda punk/hardcore paulistana Ratos de Porão. O outro show foi da primeira grande banda de rock nacional surgida nos anos 90 os brasilienses Raimundos, realizaram um show memorável, sem dúvidas o maior público de um show de rock do período. O ano de 1996 marca o lançamento do primeiro disco de rock de uma banda maranhense, a banda Daphne lançou o disco Semblantes no Ilha Rock Festival, festival realizado por Gilberto Mineiro radialista, apresentador do programa Time Rock da rádio Mirante Fm. Eu tive a oportunidade de estar no dia do lançamento, o festival aconteceu no Ginásio Costa Rodrigues no centro de São Luís. Anos depois a banda Ânsia de Vômito uma das mais conhecidas no meio metaleiro do estado, também lançaria o primeiro álbum de uma banda de metal maranhense.
Banda Daphne
EP "As aspas serão explicadas adiante"
No inicio dos anos 2000, uma banda em formato de trio, surgiu na cena e não há dúvidas que deixou saudade num público que já havia se acostumado a consumir rock’n’roll na ilha do amor. O pessoal da Catarina Mina um trio formado por violão, baixo e bateria, um cara das antigas assumiu as baquetas Eduardo Patrício ex-Sarcoma e ex-Samsara, no baixo Bruno Azevedo e no violão e vocal Djalma Lúcio que despontava como um dos melhores letristas da nova safra de compositores maranhenses. A banda lançou um EP que ainda hoje é muito lembrado por uma turma saudosista que seguia o trio em diversos shows ao redor da ilha. O EP chamado “As aspas serão explicadas adiante” tinha um cover dos Smiths e duas músicas que tocaram bastante em rádios de São Luís voltadas ao público alternativo. A banda estava no meio das gravações do primeiro disco denominado Sabão, quando repentinamente encerrou as atividades. A banda Catarina Mina representou um dos primeiros esboços de um trabalho profissional realizado por uma banda de rock do Estado.
Nos últimos quinze anos a cena vem passando por certo amadurecimento, ainda que tímido e lento em alguns momentos, mas é bem verdade que amadureceu. Chegamos à segunda metade dos anos 2010 com frutos desse amadurecimento, podemos citar duas bandas que melhor representam esse novo momento, são elas a banda de Heavy/Trash Metal conhecida como Jack Devil e os músicos da banda Soulvenir, banda de rock/indie/eletrônico.
Banda Jack Devil
Pela primeira vez bandas de rock surgidas na cena alternativa maranhense, conseguiram com esforço e talento ultrapassar os limites do Estado. Os caras do Jack Devil com muita garra e raça, já tocaram em diversos festivais do Brasil e América Latina também, além de já terem lançados dois discos com ótima aceitação do público e boas criticas de revistas especializadas. Algo quase impensável em outras épocas. A Soulvenir apesar de ser uma banda recente já nos primeiros anos de existência alcançou um feito bastante relevante para a cena rock do estado, recentemente a banda venceu o festival EDP Live Bands Brasil, alcançando o primeiro lugar, deixando para trás cerca de 1.400 bandas do país inteiro, com o prêmio a banda ganhou a oportunidade de gravar um disco pela gravadora Sony Music e participar de um grande festival em Portugal ao lado de grandes nomes do rock mundial. É visível o ótimo momento que a cena atual do rock maranhense vive, com alguns bares voltados totalmente para o público do rock, junte a isso os avanços na divulgação trazidos pelas redes sociais, esses adventos em muito ajudam no surgimento de bandas novas, ao que nos parece estamos vivendo os primeiros instantes de uma possível efervescência de uma cena que agora já podemos acreditar ter alcançado o amadurecimento necessário para chamar a atenção de outros centros musicais do país. E caso essa cena alcance os holofotes do reconhecimento, tem tudo para levar junto de si, toda uma leva de artistas que se identificam com o meio alternativo, ou seja, artistas voltados para a música regional maranhense, o reggae e os demais ritmos provenientes da incrível diversidade rítmica maranhense.
ERA UMA VEZ A CENA
MUSICAL ALTERNATIVA DE SÃO LUIS-MA
Por Natan Castro
Diferente do que o resto do
Brasil conhece o Maranhão não vive somente de nomes como Alcione, Zeca Baleiro
e o Reggae quando o assunto é música. Nos anos noventa o Maranhão ficou
conhecido nacionalmente e há quem diga mundialmente como a Jamaica Brasileira. Não
há dúvidas que o fenômeno das sound
systems (famosas radiolas) que teve seu auge nos anos noventa, ajudou o
estado a ganhar esse titulo. Bandas como Tribo de Jah, Mistical Roots e o
cantor Santa Cruz ajudaram no desbravamento do circuito reggae em âmbito nacional,
junto dos cariocas do Cidade Negra essa turma pode ser considerada os pais de
uma turma que apareceu tempos depois, dentre eles Natiroots, Mato Seco, Ponto
de Equilíbrio e outras bandas que hoje estão por ai.
Desde o final dos anos
noventa e inicio dos anos 2000, ainda que de forma timida uma cena vem se desenhando na capital ao longo de alguns anos. Desse período podemos citar
bandas como a Daphne, Paul Time, Los Boddah, Alcmena, Comportamento Estranho,
Face Oculta, cito essas para falar de bandas que tiveram certa representatividade
em circuitos de bares e casas noturnas da grande Ilha de São Luís. Por volta do
ano 2000 surge a banda de pop/rock Catarina Mina, a banda se apresentava como
trio, bateria (Eduardo Patrício), baixo (Bruno Azevedo), voz e violão (Djalma
Lúcio), com a Catarina Mina pela primeira vez uma banda de rock da capital
esboçou a possibilidade de atravessar as fronteiras do estado, era visível a
qualidade dos músicos, tanto na composição das letras, como nos arranjos e
presença de palco. Banda lançou em 2002 o EP As aspas Serão Explicadas Adiante, com esse EP conseguiram certa repercussão
entre o público alternativo da cidade. Pouco tempo depois a banda encerrou suas
atividades, alegando falta de lugar para tocar e nenhum apoio por parte da
classe empresarial, segundo disse um dos integrantes da banda em entrevista a
esse blog “Estávamos tocando por tocar,
nenhum tipo de contrapartida financeira por parte dos donos das casas shows e bares
nos era repassado, certo dia antes de um ensaio a banda acabou”. Até hoje a banda possui um número fiel de
admiradores que aguardam uma possível volta aos palcos de São Luís.
A ERA MP3 E A FACILIDADE
DE DIVULGAÇÃO ATRAVÉS DAS REDES SOCIAIS
A facilidade da troca e
reprodução de áudios propagados pela internet 2.0, propiciaram no mundo inteiro
o fenômeno do aparecimento de diversos artistas e bandas que antes conseguiam
sequer terem suas demos-tapes divulgadas em seu próprio território. No maranhão
não foi diferente, diversos artistas e bandas saíram das garagens e da solidão
dos seus quartos para mostrarem a cara nas redes sociais. Se antes era quase impossível
uma banda sem expressão sair em um jornal impresso ou numa reportagem de TV,
agora a turma estava através de uma conta do Orkut, Facebook, Myspace mostrando
suas produções não somente para o Brasil, mas também o mundo inteiro. Não passava
de dez no máximo a quantidade de bandas que haviam lançado um disco no estado
antes desse fenômeno, é incontestável o aumento depois das produções de álbuns
que a internet propiciou com os softwares de gravação a valores mais em conta.
A INDIGÊNCIA CULTURAL
IMPOSTA POR ANOS DE DESCASO POLITICO
O Estado do Maranhão pode-se
dizer que foi o ultimo território do Brasil a se desvencilhar de uma das mais ridículas
oligarquias do país. A execrável influencia da família Sarney duraram exatos cinquenta
anos, e deixaram marcas indeléveis em diversos setores do estado do Maranhão. Na
cultura e na arte não foi diferente, a politica de “Pão e Circo” propagadas
durante anos pela família pode ser vista como um dos mais tristes capítulos da
recente história da cultura brasileira. Durante bastante tempo o estado que fora
no passado conhecido como a Athenas
Brasileira, devido a grande quantidade de intelectuais saídos de sua terra
para o resto do país, teve somente duas datas voltadas para a divulgação de sua
cultura e arte, eram elas o carnaval e o São João, o que é mais triste relatar
é que as duas sempre foram usadas como advento da dita politicalha. Foram diversos
os artistas que durante muitos e muitos anos tiveram seus trabalhos cerceados
por conta de uma medíocre politica cultural, que sempre serviu como espaço de
práticas eleitoreiras das mais vis possíveis. Com a derrota do clã Sarney no
ano de 2014 para o atual governo Flavio Dino, fez reacender na cabeça de uma
classe de artistas a possibilidade de viverem tempos mais verdadeiros no
fomento da arte e cultura em todo o estado do Maranhão.
PROJETO
CULTURAL SEBO NO CHÃO E SUA INCRÍVEL LUTA A FAVOR DO FOMENTO DE ARTE E CULTURA
NO ESTADO DO MARANHÃO
Existe hoje no Maranhão, um
grupo de pessoas totalmente preocupadas e voltadas para a divulgação de todo e
qualquer manifestação cultural. Na contramão dos acontecimentos um pequeno
grupo de amigos, capitaneados pelo escritor e agitador cultural Diego Pires
resolveram anos atrás acreditar num projeto onde se pudesse divulgar,
apresentar e representar arte na capital São Luís. Como testemunha dos primeiros
passos do projeto e um dos integrantes do embrião do que hoje é conhecido no
Brasil inteiro como o projeto Sebo no
Chão do Maranhão, posso contar que antes do projeto, existia outro que foi durante
certo tempo a possibilidade de escritores amadores terem um espaço na web para
publicarem seus escritos, esse espaço existe até hoje, o blog pontocontinuando abriu portas para diversos escritores que
nunca tiveram espaço algum em nenhum tipo de veiculo de comunicação, foram
diversos dentre eles o próprio Diego Pires, Paulo Dias, Natan Castro, Alexandre
Carneiro, Tammys Loiola, Quinzinho Ribeiro, Igor Café, William Washington, Mari
Rodrigues, Jaime J Junior e alguns outros. Porém os encontros dessa turma como
todas as reuniões culturais com o passar do tempo passaram a acontecer cada vez
menos. Nesse momento Diego Pires um dos membros fundadores do grupo teve a
ideia de em sua própria casa criar O Sebo no Chão, com o intuito de não deixar
o grupo se evadir totalmente, começaram as atividades do Sebo no Chão na casa
do escritor no bairro do Cohatrac, o nome veio da forma de como os livros eram
expostos no chão e oferecidos à venda, esses primeiros encontros sempre foram
regados a muito café e cigarros e discussões sobre musica, literatura e cinema.
Diego Pires
SEBO
NO CHÃO, DA CASA PARA PRAÇA CENTRAL DO BAIRRO
Certo dia Diego Pires teve a
ideia de transportar os livros para a praça do bairro, aos poucos a venda dos
livros no chão foi atraindo diversos curiosos, com o passar do tempo, o projeto
foi abraçado por diversos colaboradores, quase sempre a turma das tribos
alternativas da cidade, roqueiros, punks, hippies, skatistas, universitários,
atores, atrizes, artistas e bandas em geral. O projeto depois de alguns anos
hoje é conhecido no estado e também fora dele por uma quantidade enorme de
pessoas, sempre um público voltado ao interesse dos assuntos culturais, hoje o
projeto além de fazer as vendas dos livros, já realiza lançamentos de livros e álbuns
de artistas e bandas independentes, além de divulgação de produções de cinema,
e varias outras manifestações culturais. Na vanguarda e na trincheira do debate
cultural o projeto só aumenta com o passar dos anos, acontece sempre nas noites
dos domingos na praça central do bairro do Cohatrac em São Luís do Maranhão. A importância
do projeto Sebo no Chão é seminal por descentralizar o fazer artístico que
antes ficava preso a região da Praia Grande de São Luís, local que possui um
importante conjunto arquitetônico com prédios do período da colonização no
Brasil, hoje o projeto é pioneiro também no mapeamento de novos artistas do
cenário musical da capital maranhense, e segundo os organizadores só tende a
crescer com as novas ações que estão sendo pensadas para um futuro bem próximo. Blog Pontocontinuando www.ponto-continuando.blogspot.com.br Fan page do projeto https://www.facebook.com/sebonochao?fref=ts