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14 de jan. de 2017

Sepultura - Machine Messiah e a Cultura da Tecno-Escravidão



Sepultura a banda de metal brasileira mais conhecida mundo a fora, lançou nessa sexta 13 de janeiro (Machine Messiah) o décimo quarto álbum da banda. Desta vez Andreas Kisser e a trupe escalaram o produtor sueco Jens Borgen, a capa ficou a cargo da artista filipina Camille Della Rosa. Como sempre a banda apresentando novidades na sonoridade, em Machine Messiah conseguimos perceber um Derrick Green com um vocal mais ameno, pitadas de sonoridades brasileiras também podem ser percebidas em Phantom Self, nessa mesma música a banda demonstra sua fome por inovação quando coloca em meio aos riffs e a pegada da bateria passagens de teclado, o resultado é surpreendente.  O álbum confirma a tônica de uma tradição da banda de sempre inovar e conseguir mostrar novos caminhos sonoros nos meandros da música pesada. A temática do disco é toda voltada aos rumos incertos das tecnologias em relação ao bem estar da raça humana, o virtual se sobrepondo cada vez mais ao real. Andreas citou algo que acontece nos shows da banda "Começamos a perceber nos shows que as pessoas estavam mais preocupadas em registrar aquele momento nos celulares e smarthphones do que vivenciar aquela experiência".

Uma curiosidade sobre a capa do disco é que a mesma já estava feita há mais de seis anos. Sobre a arte (Deus Ex-Machina) ela já havia feito a capa do nosso disco e nem se dava conta disso, arte e conceito se encaixaram perfeitamente, disse Andreas Kisser.

Por Natan Castro

22 de dez. de 2016

EDVALDO SANTANA - SÓ VOU CHEGAR MAIS TARDE



Não há equivalente de Edvaldo Santana na música brasileira. Digo isso de um longínquo e ao mesmo tempo privilegiado posto de observação. Ele não é um Elomar porque não é sedentário, não é o sábio de uma montanha; é um andarilho, um artista em movimento. Ele não é um Cartola porque não pertence a uma geografia, a uma agremiação é margem de muitos rios. Ao mesmo tempo, contém todas essas histórias. Ele aproxima pontas que parecem distantes, como Celso Blues Boy e Luiz Melodia e Augusto Campos e Arnaldo Antunes.

Por conta de tudo isso, seus discos sempre tiveram uma admirável diversidade de pontos de vista e de urdiduras musicais. Mas agora ele fez um álbum conceitual, uma coisa de unidade e simetria absolutas. É como se fosse um curriculum vitae em forma de poesia e ourivesaria sonora: Só Vou Chegar Mais Tarde (Distribuição Tratore).

O piano de Daniel Szafran pontua a canção 40 com um toque de boogie woogie sulista, aproxima Edvaldo de Jerry Lee Lewys. Tem até um washboard no som - aquele instrumento de New Orleans originado de uma tábua de lavar roupa, que espalha pequenos batuques pelas reentrâncias da música.

A tuba de Eliezer Tristão é que constrói as lombadas de Só Vou Chegar Mais Tarde, um country tingido de bluegrass que tem uma crueza musical calculada, um refinamento distraído, tipo Wilco. A voz parece que vem de algum milharal lá do fundo.

Em predicado, ele fala do alheamento urbano, da solidão das pessoas em suas unidades móveis de internet ("sonho que não foi conectado"), de novo numa canção piano-driven, dirigida pelo piano, como dizem os críticos americanos. Quando chega ao lalalalalá delicioso do final, a gente se pergunta: como um compositor desse nível não está no palco de um Lollapalooza, no lugar de algum desses bostinhas que estão lá todo ano imitando Tame Impala?

Ando livre é uma surf song ancorada numa guitarrinha havaiana fornecida pelo maestríssimo Luiz Waack, um lorde da música paulistana. O fio da meada da canção conduz o ouvinte como se fosse um road movie, fazendo atravessar o País em um ritmo de outro tempo, entre Elvis e Joe Pass, bebendo água de cacimba, tomando banho de riacho. O dueto com a cantora Rita Beneditto parece evocar um diálogo de um encontro marcado pelo destino. 

Gelo no Joelho é um samba encoxado por sanfona e trombone que fala sobre a posição crepuscular de um velho jogador de peladas, um craque amador que descobriu como diminuir os trajetos dentro do campo para que o corpo dure mais. "O tempo não para mas o tempo  passa gelo no joelho", diz Edvaldo, autor de alguns dos mais belos hinos sobre o futebol, que ele ama - mais adiante, em DOM, ele volta ao tema com um samba, homenageando o doutor Sócrates (Num pé pequeno, homem de coração bom) e acentuando o caráter retrospectivo do trabalho ("Fiz minha parte/Deixo aqui minha alegria").

Retorno do Cangaço é ultrapolitizada, a canção mais chute nos bagos do lote, mas está a milhas de ser planfetária. "A grana que sumiu tá na casa do pastor", canta Edvaldo, numa canção de construção sonora mais assimétrica, resultado de todas as vanguardas das quais ele se alimentou, começando pela música dos colegas Arrigo e Itamar.

Já a acústica Sou da Quebrada, emoldurada pela gaita de Bene Chiréia, é a nossa equivalente de This Trains is Bound Glory, de Woodie Guthrie; uma balada biográfica folk sobre uma geografia afetiva de Zona Leste, erguidasobre muito tempo de camaradagem. "Sou da quebrada mais eu sou das antigas/Quem me ensinava tinha uma letra linda".

Fazendo Aprender mostra Edvaldo, orlandosilvanamente crooner, encontrando Tom Waits numa quebradade São Miguel Paulista.

Arte Depura descobre Edvaldo citando a si mesmo, o primeiro disco (Lobo Solitário, de 1993), como se fechasse um ciclo. Sob um lençol musical que usa da percussão de um Cajón até banjo e cavaquinho, o filtro de Edvaldo depura os ouvidos.

Em Dominio, a profissão de fé encontra seu manifesto logo no inicio da música. "como diz Tião Carrero, amigo Pardinho, minha viola ainda paga aluguel". Nem tudo que Edvaldo aprendeu veio da estrada (ele desfruta da amizade de concretistas e estetas do portunhol selvagem), mas quase tudo que o fortalece vem do movimento contínuo.

De repente, em Cabaça na Mesa, comparece a influência do blues rock inglês, Led Zeppelin, John Mayall, Eric Clapton, sob um cozido de guitarra, baixo e bateria e uma vozinha de Holy Golightly (trata-se da gigantesca Alzira Espíndola, no disco) se contrapondo à sua saga de Zé do Chapéu do bilhar da esquina ("Eu não sei jogar com rato no meu taco falta giz").

A décima terceira canção é a versão musicada de Edvaldo para o poema provençal de Guillaume de Poitiers, na tradução de Augusto de Campos. De novo acústica, Edvaldo e Luiz Waack apenas, é o fecho perfeito de um disco autobiográfico minucioso. Edvaldo parece ter escolhido essa por ser um manifesto da fé no homem que se basta, no cavaleiro solitário de poucas e suficientes convicções - nenhuma delas baseada na concessão. Essa é a vida dele.

Tem um poema de Paulo Leminsky que diz assim: "Um bom poema leva anos/mais cinco estudando sânscrito/seis carregando pedra/ nove namorando a vizinha/sete levando porrada/quatro andando sozinho/três mudando de cidade (...)"

O melhor disco do Edvaldo Santana levou 40 anos. E ele o dá assim a você de mão beijada.

Jotabê Medeiros é jornalista e escritor

Nessa sexta a partir das 22:00h especial com Edvaldo Santana (Só Vou Chegar Mais Tarde) na Web Rádio Ludovicense.



9 de dez. de 2016

Osvaldo Pereira - O Primeiro DJ do Brasil


Dj Osvaldo Pereira

O tempo do seu Osvaldo não é o do iPod, do laptop com conexão sem fio, da música eletrônica, da Britney Spears grávida e sem calcinha, da "alta definição". O tempo do seu Osvaldo é o da "alta fidelidade", da Leila Diniz grávida e de biquíni, do foxtrote, da máquina de escrever, do radinho à pilha. Em 1958, a vitrola de seu Osvaldo movimentava passos de dança em São Paulo. Há cinco décadas, seu Osvaldo se transformava no primeiro DJ do Brasil.

Hoje com 73 anos, Osvaldo Pereira voltará a pilotar um toca-discos em um baile na semana que vem, dia 25 de janeiro, em evento gratuito no Sesc Ipiranga em comemoração do aniversário da capital paulista."O DJ deve ter sensibilidade para saber o que o pessoal quer dançar", conta -ensinamento que não anda muito respeitado por aí... Se a popularização da dance music faz com que figurões ganhem o equivalente a um carro 0 km por parcas duas horas de labuta, a situação vivida por seu Osvaldo era bem diferente. "Ih, não dava muito dinheiro. Era apenas um extra que eu complementava com o salário de outros trabalhos."

No currículo, constam 12 anos na Philco, na fabricação de televisores, período que desembocou na aposentadoria, em 1980. Mas o pioneirismo de seu Osvaldo já estava cristalizado e consolidado há tempos e foi recuperado pelo livro "Todo DJ Já Sambou" (ed. Conrad; esgotado), de Claudia Assef.

"Foi ele quem começou toda essa história. Ele fazia as pessoas felizes e assim tornou-se uma referência nos anos 60", conta o experiente Tony Hits, que há 35 de seus 53 anos é DJ de samba-rock em São Paulo.

Não queria dançar
A figura do DJ como alguém que utiliza toca-discos para embalar festas ganhou vida com Jimmy Saville, na Inglaterra, em 1947. Nos EUA, a idéia só tomou forma na década de 50. No Brasil, até 1958 os bailes eram animados ou por orquestras e grandes bandas ou amigos dos donos de salão, que se revezavam para colocar os discos que queriam ouvir, sem critério, ordem ou constância. Seu Osvaldo freqüentava esses bailes, mas "não me interessava em dançar.
Eu queria mesmo era ajudar a escolher as músicas que iriam tocar".

Aos 22 anos, em 1954, após completar um curso por correspondência de rádio e TV promovido pela National School, dos EUA, seu Osvaldo ganhou um emprego na Elétro Fluorescentes Arpaco Ltda., loja de equipamentos eletrônicos no nº 209 da r. Guaianazes, na esquina com a r. Vitória, em São Paulo. O dono do estabelecimento, um armênio simpático que falava cinco línguas e atendia por Sharom, foi com a cara do tímido Osvaldo e delegou-lhe uma importante tarefa: "Ele queria que montássemos amplificadores de alta fidelidade, que estavam chegando ao mercado".

A abastada clientela de Sharom voltava das viagens ao exterior com equipamentos de última geração e levava à loja para que Osvaldo montasse e construísse caixas de som adequadas. "Nós aproveitávamos para tirar cópias do diagrama [a estrutura do equipamento e suas peças]. Aí fazíamos nós mesmos aparelhos iguais e vendíamos na loja."

Apaixonado por música, seu Osvaldo aproveitou o conhecimento adquirido na loja para construir seu próprio equipamento de som: um toca-discos movido a válvula.

Orquestra Invisível
Com o potente aparelho, em meados de 1958 ele foi convidado a colaborar com o som de casamentos e de aniversários na região da Vila Guilherme (zona norte de SP). Ali passou a ficar como "efetivo" no manuseio das bolachas. Era ele quem comandava as músicas do início ao fim das festas.

No ano seguinte, foi chamado para tocar em um "piquenique" em Itapevi (Grande SP) -entre aspas porque esse piquenique não envolvia cesto de comida, toalha na grama e clima romântico. "Piquenique era uma espécie de rave da época."
A fama de seu Osvaldo crescia no circuito "clubber" da São Paulo do final dos anos 50. Ganhou o cargo de DJ oficial do Club 220, que rolava nas tardes de domingo no 17º andar do edifício Martinelli, centro de SP. Batizou suas performances de Orquestra Invisível Let's Dance -depois alterada para High Fidelity Let's Dance.
O passo seguinte foi uma residência aos sábados à noite no salão Ambassador (hoje Green Express), na av. Rio Branco.
"As festas ficavam cheias, e foi aí que perceberam que se podia ganhar dinheiro fazendo bailes à noite, sem orquestra."

Com intervalo
O custo para montar uma noite com orquestra era muito mais caro do que com o som mecânico do seu Osvaldo, que levava o próprio equipamento ao local do baile com a ajuda de um táxi e de três auxiliares.

Muitos clubes da cidade passaram a promover festas que varavam a madrugada: Devaneio, Ás de Ouro (na Casa Verde), Pérola Negra (Imirim). "O número de festas aumentou muito. Eu chegava a ter a agenda lotada por três meses", lembra, saudoso, dos tempos em que o DJ tinha que se apresentar vestindo terno e gravata.
Com apenas um toca-discos, era inevitável um intervalo entre as músicas, interrompendo a dança. Seu Osvaldo então construiu um mixer para "colar" uma canção na outra, sem paradas. Mas a recepção não foi a esperada. "O pessoal não gostou da música ininterrupta. Os rapazes queriam que tivesse intervalo, para poder trocar de damas." O mixer nunca mais foi usado por seu Osvaldo.

Sem tango
Foxtrote, samba-canção, chachachá, rumba, algum bolero. Da vitrola de seu Osvaldo, saía quase tudo. Apenas tango não entrava de jeito nenhum. "Tocava tango apenas nos casamentos do bairro. Nas festas na cidade, nunca." Frank Sinatra, Ray Charles, Glenn Miller, Benny Goodman e Ted Heath eram alguns dos hits do DJ. "Mas o que causava frisson era Ray Conniff", diz.

A carreira de DJ de seu Osvaldo durou dez anos. Em 1968, deixou os toca-discos em casa para o trabalho na Philco e o sustento da mulher e dos cinco filhos (depois, casou-se novamente e teve dois rebentos).
Após 1968, ele voltou a discotecar por duas vezes. No lançamento do livro "Todo DJ Já Sambou", em 2003, e em uma noite no extinto clube Soul Sister, no Itaim Bibi, em 2005.


Mas as lembranças de seu Osvaldo ainda permanecem fresquinhas. "Era comum os rapazes pedirem para eu "reprisar" alguma música, porque eles queriam tentar conquistar uma mulher. Até me traziam uma cuba libre para agradecer."

Fonte:SiteUol

6 de nov. de 2016

SAMBA JAZZ - Quando o Tio Sam Encontrou a Nossa Batucada



Advindos de uma mesma matriz sonora o samba e o jazz se reencontraram em meados da década de cinquenta. O reencontro inevitável aproximou de uma vez por todas duas vertentes sonoras que tem como pátria mãe o continente africano. Filhos da escravidão os dois estilos surgiram desse desejo premente de lamentar o destino pesado a que foram impostos. Se os negros americanos eram lançados a diversas horas de trabalhos forçados nas lavouras de algodão, os negros brasileiros não diferentemente eram forçados a trabalhar muitas vezes encurralados por açoites de malfeitores nas fazendas de riquíssimos senhores do engenho.

Brazilliance
Antes desse grande reencontro houve todo um processo de fusão da qual fizeram partes outros sub-estilos até que os dois chegassem a um amadurecimento que lhes legou a importância devida não só nos dois países como no mundo inteiro. A primeira vez que se ouviu falar na mistura entre o samba e o jazz foi no disco “Brazilliance” gravado em 1953 pelo violonista brasileiro Laurindo Almeida e o saxofonista Bud Shank, o disco é considerado o inicio dessa gloriosa junção. Pela primeira vez um músico de jazz caia de cabeça em nosso repertório improvisando como nunca se tinha visto antes. Esse disco foi editado no Brasil pela Musidisc e diz a lenda fez a cabeça de alguns jovens músicos que mais tarde revolucionariam a música através da bossa nova.

Turma da Gafieira
Outro disco de suma importância para o movimento do samba jazz foi “Turma da Gafieira” com Altamiro Carrilho (flauta), Zé Bodega e Maestro Cipó (saxes-tenor), Raul de Souza (trombone), Sivuca (acordeão), Baden Powell (violão), José Marinho (baixo) e Edison Machado (bateria). Dentro desse impressionante time de músicos, o baterista Edison Machado chamou a atenção por usar os pratos da bateria em estimulantes acompanhamentos, algo inédito e extremamente inovador para o período.


Com o devido reconhecimento da qualidade sonora trazida pela bossa nova a música pop, desencadeando na mítica apresentação dos jovens músicos brasileiros no Carnegie Hall em 1962. Alguns músicos que aqui estavam deram inicio ao que se convencionou a chamar de movimento do samba jazz, o Beco das Garrafas em Copacabana era a casa de show onde excelentes músicos apresentavam o que de melhor se produzia de música naquele período no país. Podemos citar entre esses músicos Milton Banana, Claudette Soares, Alaíde Costa, Marisa Gata Mansa, Leny Andrade (com 17 anos, sendo menor de idade era acompanha pelo pai), Pery Ribeiro, Julio Barbosa, Maestro Cipó, Hugo Marotta, Silvio Cesar, Orlann Divo, Tenório Junior, Jorginho Ferreira da Silva, Edson Maciel, João Luiz Maciel, Durval Ferreira, Dom Um Romão, Chico Batera, Victor Manga, Tião Neto, Rosinha de Valença, Manuel Gusmão, Luiz Carlos Vinhas, Hélcio Milito, Bebeto Castilho, Sylvinha Telles, Dóris Monteiro, Wanda Sá, Tito Madi, Sergio Ricardo, Candinho, Mario Castro Neves, Osmar Milito, Aurino Ferreira, Sérgio Barrozo, Roberto Menescal, Alberto Castilho, Ronaldo Vilela, Oscar Castro Neves, Jorge Ben, Toninho Oliveira, Sérgio Augusto, Marcos Valle, Lúcio Alves, Antonio Adolfo, Chico Feitosa, Mario Telles, Moacir Marques, Juarez Araújo e Odette Lara.


Beco das Garrafas (Copacabana)
O movimento ficou bastante marcado pelo surgimento dos famosos trios, a formação baixo, bateria e piano enlouqueciam todos com a profunda liberdade jazzística sendo aplicada sem pudor algum por cima de nossos temas. Desses os que mais se sobressaiam foram Edison Machado Trio, Milton Banana Trio, Tamba Trio, Zimbo Trio. Nunca é tarde lembrar que a revolução sonora proporcionada pela bossa nova não somente se resumia a batida inédita no violão criada por João Gilberto e desenvolvida por Roberto Menescal e outros, como também por culpa dos impressionantes músicos que ousaram colocar tempero musical nacional na culinária sonora dos americanos, o que causou um mar de referências musicais que até hoje é reverenciada por ouvidos atentos e treinados na tradição de uma música de inegável qualidade.


Por Natan Castro

5 de nov. de 2016

Arandu Arakuaa - A Primeira Banda de Heavy Metal Indígena



A Arandu Arakuaa (Saber do Cosmos, em tradução livre do tupi antigo) é a primeira banda heavy metal a cantar na principal língua indígena brasileira.
Mas a vida não é nada fácil para os integrantes da banda dentro da cena do metal.

Preconceitos

O fundador, Zândhio Aquino, disse que chegou a fazer parte de algumas bandas em Brasília após deixar sua cidade natal no Tocantins, mas saiu de todas porque não conseguiu incluir a temática indígena em nenhuma delas.
"Eu cheguei em 2005 depois de me formar em pedagogia na federal do Tocantins, mas só três anos depois eu decidi fundar minha própria banda. Foi um processo muito longo e só em 2011 a gente chegou à formação que mantemos até hoje", conta.
Mesmo com um público fiel e certo espaço no mercado, Zândhio conta que a banda ainda é questionada com frequência por outros metaleiros.
"Encontrei resistência desde o início por causa da minha origem e meu compromisso de falar da cultura indígena. Muita gente não entende isso e acha que fugimos demais da essência do estilo", afirma.
Ele conta que até mesmo seus fãs sofrem essa resistência.
"Às vezes, tem um adolescente que quer falar com a gente, pedir autógrafo, e está com os amigos. E enquanto o fã é atendido pela gente, os amigos ficam longe, de braços cruzados, para demonstrar rejeição. Fica uma situação constrangedora tanto para a gente quanto pra ele", relata.

Negro, mulher e nordestinos

Mas a banda Arandu não foge dos padrões dos metaleiros apenas musicalmente. Ela também é considerada exótica por usar cores claras, em referência à floresta, e terem integrantes "fora do padrão".
"O forte da nossa vocalista é o gutural, uma técnica agressiva incomum para mulheres. Eu canto como um pajé, com voz mais rouca, e ainda temos um baterista negro. Além de mim, que nasci no Norte e sou descendente de índios, temos integrantes filhos de nordestinos. Tudo isso gera uma série de questionamentos por fugir do padrão do branquelo cabeludo", conta Zândhio.
Por outro lado, ele afirma que gosta dos questionamentos e debates gerados por essa singularidade da banda.
"Mas é uma via de mão dupla porque ao mesmo tempo em que as pessoas vão achar original, por outro há pessoas muito conservadoras ou que não têm ouvido musical para isso", afirma.
Zândhio conta que o público, mesmo com uma certa rejeição à primeira vista, respeita muito a banda e se aproxima do palco para conhecer o som "e acaba ficando por lá". Ele relata que ainda assim mantém um bom relacionamento com todas as bandas do gênero e com o público.
"Já os produtores ainda são muito conservadores e medrosos. Eles têm medo de contratar a banda e o público não ir, mas é o contrário", afirma.
Os integrantes da banda, fundada a partir da amizade de seus integrantes a partir do extinto Orkut, fazem pinturas corporais e usam botas, ao invés de coturnos.

Essência


O líder da Arandu conta que criou sua própria guitarra de dois braços para viabilizar a constante troca de ritmos das músicas da banda. "O braço superior é uma viola caipira, que traz o lado regional, e o de baixo é uma guitarra, o lado agressivo da banda. A intenção é surpreender e contrastar com o bonitinho e regional", explica.

Capa do último álbum da banda
As letras da banda falam principalmentre do cotidiano das aldeias indígenas, rituais de passagem e lutas por terra. A intenção é relatar tudo isso de forma mística e poética para estimular a reflexão.
A banda lembra que são comparados com frequência com os também brasileiros do Sepultura. Zândhio afirma que eles gostam de Sepultura, mas que o CD Roots,dos irmãos metaleiros, tem referências indígenas apenas na capa do álbum e em uma de suas faixas.
O estilo musical usado pelo Sepultura no álbum é majoritariamente afro-brasileiro e isso ainda causa confusão nos fãs, diz.
A Arandu também faz questão de dizer que tem vontade, mas nunca tocou numa aldeia indígena por falta de dinheiro. Zândhi afirma que frequenta aldeias e tem contato direto com índios. Segundo ele, o retorno da parte deles é respeitoso e positivo.

"Eles sabem que minha avó é indígena, que eu morava perto de aldeias e sempre tive um contato estreito com o dia a dia deles. Desde criança, eu recorro à medicina baseada nas ervas, no próprio conhecimento indígena e de algumas comunidades quilombolas", relata.
O último CD lançado pela banda, em 2015, também inclui faixas em xavante e uma em português. Assim como nos álbuns anteriores, há a influência de death metal e trash, os estilos mais pesados do metal.
O mais difícil para os fãs é entender as letras da banda. O problema é que até mesmo alguns sites especializados em letras de música não reconhecem as traduções por entender que o tupi-guarani é uma "língua que não existe" - nem mesmo quando Zândhio tenta incluí-las pessoalmente.
A solução encontrada pela banda foi legendar todos os clipes no YouTube.
"Isso é muito engraçado, porque nossos fãs costumam mandar e-mail dizendo que não conseguem achar as letras e traduções. Nós temos um arquivo com todas elas e temos o maior prazer de enviar para todos eles", diz Zândhio sorrindo.
Fonte: BBC Brasil

16 de out. de 2016

Cinco Melhores Discos da Legião Urbana Comentados



Em 2016 está fazendo vinte anos da morte de Renato Russo, o líder da Legião Urbana figura com outros grandes nomes da geração do rock anos 80 como um dos principais letristas. Como tal Renato Russo descende de uma tradição de grandes letristas do rock, que vem desde Bob Dylan, passando por David Bowie, Jim Morrison, Neil Young, Ian Curtis chegando até Morrissey ex-lider do The Smiths mítica banda de rock inglês dos anos 80.

Abaixo uma lista dos cinco melhores discos da Legião Urbana, traçando um paralelo com o momento político-social do Brasil, as análises focam nas composições de Renato Russo e sua devida importância para uma geração fãs e admiradores.

Legião Urbana – Dois

1986 a banda lançou o segundo disco da carreira, é visível a evolução da banda no que diz respeito a produção e desenvolvimento das músicas em estúdio. Produzido por Mayrton Bahia o disco é recheado de hits a maioria deles de alcance nacional, o Brasil havia passado pela expectativa de grandes mudanças nos rumos do país por conta eleições de 1985, o anúncio da morte de Tancredo Neves que era visto como um verdadeiro salvador da pátria havia jogado um balde de água fria nas esperanças do povo brasileiro.

Nas letras Renato Russo começava a delinear o estilo característico de relatar experiências pessoais de forma poética em suas canções. “Dois” da Legião Urbana é um discaço. Em Daniel na Cova dos Leões ele cita a bíblia poetizando acontecimentos pessoais, Eduardo e Mônica ele cita a influência de Dylan com as canções que contam pequenas histórias, em Tempo Perdido ele inicia cantando os versos “Todos os dias quando acordo, não tenho mais o tempo que passou”. A canção é uma bela referência ao escritor francês Marcel Proust e o seu Em Busca do Tempo Perdido. Com esse disco o Brasil começava a conhecer a maior banda de rock daquela geração e porque não dizer o poeta maior daquela geração que ele mesmo denominou Geração Coca-Cola.



Legião Urbana – As Quatro Estações

Em 1989 o Brasil vivia as lamúrias dos planos econômicos da era Sarney, inflação altíssima e todo tipo de desesperanças político-sociais. Uma nova eleição trazia mais uma vez a possibilidade de grandes mudanças, pela primeira vez em muitos anos o Brasil iria escolher seu presidente da república através do voto direto. A banda Legião Urbana nesse período já carregava o titulo de uma mega banda de rock nacional, com milhões de discos vendidos, shows lotados alguns deles em estádios. Nas letras Renato Russo destilava os dissabores de alguns relacionamentos que não deram certo, era visível esse acerto de contas com o lado sentimental do poeta através de suas canções. 

O disco já inicia com essa que é uma das melhores letras do rock nacional, em Há Tempos ele trata das vicissitudes que espreitam os confusos anos da juventude, uma grande canção da banda, que impressiona por não conter refrão, recheada de grandes versos e belíssimas metáforas, a impressão que passa que a cada novo verso um novo refrão, uma canção genial. Nesse disco Renato Russo começa abordar o tema da homossexualidade de forma mais definida, canções como Feedback Song For a Dying Friend, Meninos e Meninas demonstra claramente sua opção sexual que em determinados momentos se mostrava ambígua também. Em Pais e Filhos ele insiste no perigo da autodestruição que sempre paira sobre a fase adolescente, a música era cantada em uníssono nos shows no Brasil a fora. O nome do disco cita também um problema de saúde mental que ficaria mais claro anos depois, a dependência química, com tendências a drogas e álcool, tudo por conta da bipolaridade um tema que somente anos depois passava a ser encarado de forma mais atenciosa no país e no mundo, Renato Russo foi um dos primeiros artistas a começar a tocar no assunto.



Legião Urbana – V

Em 1991 o Brasil vivia o período Collor de Melo, o mais jovem presidente da história do país, alçado ao cargo por uma massa de jovens, a grande maioria da classe feminina que se sentiu atraída a nomear um jovem politico para o cargo. Um ano depois esses mesmos jovens pintaram as caras e foram as ruas gritar pelo impeachment do presidente. A legião Urbana lança o álbum V, esse é sem dúvidas o disco mais tétrico no alto sentido da palavra, a banda retorna ao post-punk movimento ao qual se enquadrava no inicio de carreira. A banda cita o disco Pornography do The Cure como influência para os temas arrastados que é a tônica sonora do disco.

Nas letras Renato Russo passa a limpo uma das fases mais difíceis de sua vida, um ano antes havia descoberto ser portador do vírus HIV. A fase pesada fica bastante clara em canções como Metal Contra as Nuvens, de alguma forma um acerto de contas pelos erros, o poeta descia ao inferno e subia aos céus pedindo clemência a um deus que até então nem parecia existir. Em A Montanha Mágica ele cita mais uma vez um grande escritor dessa vez o alemão Thomas Mann, “Minha papoula da índia, minha flor da Tailândia, és o que me fazes tão mal”. A temática das drogas é recorrente nessa fase. L'Âge D'Or ele canta “Já tentei muitas coisas, de heroína a Jesus, tudo que já fiz foi por vaidade”. É bastante claro um catálogo de arrependimentos e ele canta isso de peito aberto, as canções da Legião urbana representavam para Renato uma espécie de divã. O disco tem ainda a belíssima Vento no Litoral e O Mundo Anda Tão Complicado era quando ele se dava ao luxo de dar trégua a essa batalha existencial que travava consigo mesmo.



Legião Urbana - O Descobrimento do Brasil

Em 1993 o Brasil vivia um período mais sossegado, os anos de crise haviam deixado marcas indeléveis no povo brasileiro, após da saída de Collor de Mello, o vice Itamar Franco havia assumido e realizado o importante trabalho de começar a colocar a economia nos trilhos, logo depois entregaria a presidência a Fernando Henrique Cardoso que fora seu ministro da fazenda, logo teríamos uma nova moeda e inflação controlada.

O disco novo da Legião vinha com um titulo inusitado, O Descobrimento do Brasil, o titulo era na verdade uma homenagem a uma nova geração que recebia o legado da banda de braços abertos eram os filhos dos primeiros legionários. As letras nesse disco parecem mais maduras no que diz respeito a vida pessoal do letrista. Renato Russo citava nas entrevistas o seu filho, o filho seria fruto de uma noite com uma modelo que teria morrido em um acidente de carro logo depois do nascimento da criança. Mais tarde descobriu-se que Renato Russo havia adotado uma criança e tinha dado a ela o nome de santo com cantou em Pais e Filhos. O disco possui belas baladas, como Vamos Fazer Um Filme, Vinte e Nove, Anjos.

No campo da consciência politica Renato Russo compôs uma das suas melhores canções de cunho politico, A Perfeição é uma grande letra, nela o poeta descarrega sua metralhadora de versos mordazes citando todas as mazelas de uma sociedade desigual e joga a conta na cara de uma classe politica inepta aos anseios de um país que não parava de crescer em desigualdades. Em Só Por Hoje o letrista canta seus problemas com dependência química poetizando o problema em forma de canção, a genialidade de Renato Russo como compositor deve também ser explicitada por essa capacidade de poetizar suas dores nas canções. Em suma mais um grande disco de uma grande banda de rock.



Legião Urbana – A Tempestade

Em 1996 o país vivia a estabilidade econômica trazida por uma moeda forte, os mecanismos de sufocação da inflação se demonstravam acertados, os tempos de preços altos nas mercadorias haviam ficado para trás. A banda havia abandonado uma turnê nacional, os problemas depressivos de Renato Russo causados pela bipolaridade, levavam o poeta ao uso abusivo de álcool e drogas, além é claro da AIDS. O disco todo foi produzido e gravado em meio a tensões enormes, os ataques de personalidade de Renato Russo causaram grandes estragos na gravação do disco, tudo isso fica visível na voz do cantor  durante a interpretação das canções do disco. O disco foi produzido por Carlos Trilha e mostrava uma banda madura flertando com novas vertentes do rock pop, os arranjos são os mais elaborados de toda a discografia. As letras representam a fase mais pesada e podemos dizer destrutiva de toda a trajetória de Renato Russo como compositor. Quem ouviu o disco na época do lançamento percebeu que algo muito desesperador estava prestes a acontecer, era um disco da Legião Urbana, mas de uma Legião estranhamente diferente de anos atrás. Os versos mais mordazes e tristonhos estão nesse disco, pode-se perceber isso nas músicas Mil Pedaços, A Via Láctea e O Livro dos Dias. O canto do cisne da banda mesmo em meio a tanta tristeza ainda possui sim tentativas de reação por parte de Renato Russo, é visível isso em Dezesseis, Leila e 1⁰ de Julho.


Logo depois do lançamento a noticia fatídica do falecimento precoce de Renato Russo deixou atônita toda uma legião de fãs no país inteiro. Acabava ali com a morte do líder da Legião Urbana o fim de um ciclo brilhante de uma geração que nos trouxe talentosíssimos músicos e compositores. Seis anos atrás havíamos perdido Cazuza e no rock de fora o impressionante Freddie Mercury, todos para o vírus HIV. Se Cazuza havia cantado “Meus heróis morreram de overdose”. Os nossos heróis da geração dos anos 80 estavam desaparecendo por conta dessa doença injusta e mortal. A lacuna deixada pela Legião Urbana em termos sonoros e poéticos no rock e na música brasileira é sentido até hoje, o tempo serviu para mostrar a todos que a Legião Urbana de Renato, Dado e Marcelo Bonfá é e sempre será a maior banda de rock desse país. 


11 de out. de 2016

Radiohead - Ed O’Brien cita Brasil como inspiração em álbum solo



Em entrevista para a BBC 6 Music, o guitarrista da Radiohead, Ed O’Brien revelou que irá lançar seu primeiro álbum solo no ano que vem. O músico não será o primeiro da banda a se aventurar fora do grupo. Thom Yorke,Phil Selway e Johnny Greenwood já lançaram seus próprios trabalhos, anteriormente.
O’Brien revelou na conversa que sua maior inspiração para o disco será o período em que viveu no Brasil com sua família. Depois que seus filhos nasceram, o guitarrista avisou seus colegas de banda que iria morar no país e que até mesmo poderiam fazer um álbum sem a presença dele, se quisessem.
Uma vez no Brasil, Ed morou numa pequena casa no interior, onde suas crianças puderam aprender um pouco do português e ele, todos os dias, subia uma colina e escrevia diversas canções. Mas foi depois do Carnaval que ele conseguiu se inspirar de verdade.
Devia ter umas 4 mil pessoas em cada escola de samba que desfila lá, e a combinação de escrever música com aquele sentimento de estar lá e estar tipo ‘Oh meu Deus, música pode ser assim’. Foi muito profundo, então alimentou toda minha inspiração e escrita”, contou O’Brien.
Recentemente, o grupo lançou o clipe de "The Numbers" dirigido por Paul Thomas Anderson.
Fonte: Site Uol via Nação da Música

30 de set. de 2016

Cinco Músicas Politicas Mais Significativas do Rock Nacional



O dia nacional da democracia é para grande maioria sinônimo de vergonha, os mais recentes acontecimentos envolvendo operações da Policia Federal, Impeachment e mais recentemente assassinatos de uma quantidade considerável de candidatos só faz confirmar a certeza que a famigerada politica do Brasil chegou a um estágio deplorável, com chances remotas de melhoria a curto prazo numa análise bem realista. Em face do escarcéu que vive a nação nos últimos meses resolvemos criar a lista das cinco músicas politicas mais significativas do rock nacional. O Rock sempre foi e sempre será um veiculo importantíssimo de elucidação das massas. Desde Bob Dylan com as primeiras canções de cunho político-social passando por Beatles com “Revolution” e logo depois o punk rock metendo o dedo na ferida sem nenhum pudor. O rock’n’roll sempre esteve ai chamando a atenção a quem quiser ouvir, a realidade ao nosso redor só será algo mais justo e igual, se profundas mudanças ocorrerem na forma e nos meios de se fazer politica no Brasil e no mundo.

05. Até Quando Esperar (Plebe Rude)

A Plebe Rude é uma banda de rock de Brasilia surgida no cenário do rock nacional no inicio dos anos 80. A música “Ate Quando Esperar” é um clássico da banda que possui outras tantas canções de rock de cunho politico. A música foi sucesso no Brasil inteiro chegando ao topo das paradas das rádios em meados dos anos 80, a letra fala de má distribuição de renda, uma alusão também as promessas inócuas de melhoria da qualidade de vida, um retrato de um país que como diz a letra vive a espera eterna de um momento melhor, momento esse que até hoje jamais chegou.

04.  Alvorada Voraz (RPM)

RPM banda paulista dos anos 80, advinda da safra de bandas da maior cidade do país. Na letra Paulo Ricardo mistura lirismo e critica político-social em versos criticando um país que ainda se via envolto na censura e alguns sintomas repressivos de uma ditadura que estava prestes a cair, crimes de corrupção e previsões não tão interessantes para a virada do século XXI.


03. Aluga-se (Raul Seixas)

O mestre Raul Seixas em 1980 lançou no disco Abre-te-Sésamo a música que talvez melhor sintetize o desejo de muitos brasileiros. Aluga-se é uma espécie de consultoria dada pela mente genial de Raul Seixas em cima da crise politico-social eterna que o país vive. Na visão do artista alugar o Brasil é a única solução, segundo ele tem a Amazônia como vista do nosso quintal nada mais propício para uma venda de sucesso, até porque o dólar deles paga o nosso mingau. Um clássico do nosso grande Raulzito e uma das criticas mais contundentes a classe politica do Brasil.

02. Brasil (Cazuza)

Cazuza assim como a maior parte dos músicos e letristas do rock nacional dos anos 80 era filho da classe média alta. Nada mais esquisito em termos de posicionamento politico, e de fato era, a conscientização artística desses jovens daquela geração legou a eles uma forte consciência politica também. Na letra de “Brasil” Cazuza fala dos bastidores do High Society, mas com um olhar de alguém da plebe. “O meu cartão de crédito é uma navalha, Brasil qual o téu negócio o nome do teu sócio confia em mim”. Um dos momentos altos do rock nacional quando o assunto é letra politica.

01.  Que Pais é Esse? (Legião Urbana)


A música do rock nacional que melhor sintetiza o estágio de decadência renovável da nossa classe politica é “Que País é Esse?” da Legião Urbana. Renato Russo escreveu a letra quando ainda vivíamos na ditadura militar em 1978, a letra que diz “Na Amazônia no Senado sujeira pra todo lado” é de uma atualidade repugnante. 

Por Natan Castro

18 de ago. de 2016

Raul Seixas – Como Ele Burlou O Sistema Em Rede Nacional



Raul Seixas escreveu um dos capítulos mais singulares da música brasileira. Sempre foi visível a aversão do artista contra quase tudo no sistema estabelecido, talvez o mais genuíno anarquista da classe artística parida na safra da virada dos 60 para os 70, o roqueiro baiano deve ser encarado dessa forma, anarquista e revolucionário em vertentes diversas. Nunca se enquadrar nos ditos parâmetros impostos pelo status quo era talvez sua principal característica. É um engano pensar toda a trajetória de Raul Seixas parecida com outros pares de seu tempo no Brasil. Insistir e chamar a atenção para o caráter multifacetado de sua persona é o mais apropriado a se fazer. Raul sabia desde sempre o quanto era ousada a mensagem por detrás de suas letras, sua imagem que oscilava entre o rock star nacional, o filósofo dos temas universais e por fim o messias das massas. O que o difere em muito de diversos outros grandes artistas do seu tempo é exatamente a incrível capacidade de se comunicar, interagir e dessa forma se fazer entender em todas as camadas da sociedade organizada. Pouquíssimos artistas alcançaram tal façanha. A música de Raul Seixas é consumida por antigas e novas gerações de todas as classes sociais do país, em contrapartida nunca existiu de sua parte uma tentativa de simplificar seu texto, detalhe esse que demonstra o tamanho respeito pelo seu público em geral. Ao cantar sobre filosofia, politicas e lutas o faz magistralmente se fazendo entender por todos, além de um genuíno artista de musica popular, um grande comunicador de massas.


No inicio dos anos 80 Raul Seixas passou por um dos períodos mais difíceis de sua carreira, o artista se viu esquecido por cerca de dois, três anos. Gravadoras, empresários visivelmente evitavam o artista. Parte desse desinteresse por culpa própria devido ao uso abusivo de álcool e drogas. No ano de 1983 algo inusitado aconteceu, e tal acontecimento aparece na trajetória do artista como um dos mais curiosos. Nesse ano Raul Seixas foi convidado pela Rede Globo para participar de um especial de televisão voltado para o público infantil. O especial Plunct, Plact, Zuum foi um dos maiores sucessos de audiência da Rede Globo naquele ano, chegando a ganhar medalha de prata no International TV Film of New York. O nome do especial foi retirado de um trecho de uma música composta por Raul Seixas para o especial, a canção era o Carimbador Maluco. O que poucos perceberam foi a magistral jogada de mestre do grande Raul Seixas, depois de um bom tempo sendo evitado pelo sistema (gravadoras, empresários, o showbizz em si) Raulzito retorna num especial infantil da Globo. Diversos fãs, amigos e admiradores da trajetória artística de Raul Seixas o taxaram de entreguista, em suma de ter se rebaixado as mãos malignas do sistema.

A verdade de fato era totalmente outra, a letra da música Carimbador Maluco não passa de uma critica feroz e bastante contundente a esse próprio sistema que o artista tanto rebateu e criticou em vida, baseada em suas leituras sobre o anarquismo, Raul imprimiu na letra fortes pitadas de seu sarcasmo característico, a parte da letra que diz: Plunct, Plact, Zuum se refere ao barulho feito por um carimbo ao fixar num documento normas e deveres, a critica a burocracia desacerbada do sistema, o carimbo aparece na letra como um dos símbolos da supremacia do sistema capitalista e todas suas trágicas consequências no âmbito econômico e social de nossa sociedade. O trecho que diz: tem que ser selado, carimbado, avaliado, rotulado se quiser voar. Confirma a mordacidade nas entrelinhas da letra, algo que passou despercebido por conta de sua incrível capacidade de composição. Raul Seixas como um dos mestres da música de protesto, se apropria dessa incrível capacidade para burlar o sistema, com a ajuda do público infantil o artista celebrou seu retorno aos braços do sucesso, porém sem esquecer-se de deixar sua marca de inconformismo num programa de imensa audiência nacional da Rede Globo a maior rede de comunicação do país, o mestre voltava para trincheira dos debates na vida e na arte empunhando sua guitarra mais vivo e genial que nunca.